Monday, April 20th, 2026

O Lado Sombrio da Tela: A Tensão de “Bom Dia, Verônica” e o Fascínio Visual de “Mint”

O universo das produções investigativas e criminais continua se expandindo com abordagens cada vez mais ousadas na televisão. Hoje, os holofotes se dividem entre duas obras que, embora tragam o crime e a violência como pano de fundo, apostam em caminhos narrativos completamente distintos. De um lado, temos as novidades imperdíveis e cruas da produção nacional da Netflix. Do outro, cruzamos o oceano para acompanhar uma série britânica que promete redefinir a estética e os limites do gênero.

A Caçada Continua em Território Nacional

A expectativa finalmente ganhou forma para os fãs do suspense brasileiro. O trailer da aguardada segunda temporada de Bom Dia, Verônica acaba de ser divulgado, reacendendo a ansiedade do público para o dia 3 de agosto, data confirmada para o retorno da série ao catálogo da Netflix. Inspirada no livro homônimo de 2016, escrito a quatro mãos por Ilana Casoy e Raphael Montes sob o pseudônimo de Andrea Killmore, a trama promete elevar a tensão investigativa a um novo patamar.

Tainá Müller reassume brilhantemente o papel da escrivã e agora caçadora Verônica Torres. Se na primeira leva de episódios a protagonista desvendou os horrores perversos cometidos pelo personagem de Eduardo Moscovis, a nova fase foca em um antagonista inédito. Agora, chegou a vez de Reynaldo Gianecchini entrar na mira das investigações e ser caçado por Verônica. A direção continua sob o comando experiente de José Henrique Fonseca. Além de trazer de volta rostos conhecidos como Elisa Volpatto, Sílvio Guindane, Adriano Garib e Johnnas Oliva, o elenco ganha um fôlego renovado com a chegada de Klara Castanho, Camila Márdila e Pedro Nercessian.

Da Investigação Brasileira ao Submundo Escocês

Enquanto a série brasileira foca na crueza realista da investigação policial, a produção britânica Mint subverte quase tudo o que esperamos de um drama de máfia. Ambientada nos arredores áridos e anônimos de uma cidade na Escócia, a série nos apresenta Shannon. Ela é uma jovem de 22 anos sem trabalho, hobbies ou vida social. Vive à espera de um grande amor, isolada em uma casa cercada por uma família no mínimo perturbadora. Seu pai, Dylan (Sam Riley), é um gângster temido. Sua mãe, Cat (Laura Fraser), é uma bizarra amálgama de esposa de mafioso e dona de casa perfeitinha no melhor estilo Stepford. Para completar o quadro, o irmão é um nerd da computação e a avó é uma ninfomaníaca durona como pedra.

O destino monótono de Shannon muda radicalmente logo no primeiro dia da trama. Ela cruza olhares com Arran, interpretado pelo músico Loyle Carner (creditado como Benjamin Coyle-Larner), em uma estação de trem deserta. A paixão é imediata.

Estética Arrebatadora e Realidade Brutal

O que começa como uma versão moderna e suja de Romeu e Julieta não demora a trilhar caminhos mais obscuros. Quando Cat descobre que o novo interesse amoroso da filha pertence a um clã rival que vem causando sérios problemas para os negócios escusos do marido, a bolha romântica estoura. A partir daí, o drama eufórico dá lugar a um estudo profundo, caótico e brutal sobre trauma, poder, lealdade e traição.

Aos 31 anos, a roteirista e diretora Charlotte Regan prova que seu talento vai muito além do sucesso de “Scrapper”. Sua primeira grande incursão na televisão tem a assinatura inconfundível de uma autora no controle absoluto de sua visão. Combinando uma colagem de filmagens com estética VHS, sequências de devaneios surreais, enquadramentos estranhamente lindos e efeitos especiais peculiares, Mint se consagra como a série mais escandalosamente bela desde “Twin Peaks”. Há uma cena de masturbação logo no episódio de abertura que desafia qualquer padrão visual: enquanto Shannon fantasia sobre o novo namorado, as luzes piscam violentamente, faíscas de maquinário industrial rasgam a tela e policiais armados invadem a casa da família em total silêncio. E não, essa invasão policial não é uma metáfora visual. Ela é real.

Apesar desse inegável triunfo estético, o universo da obra é construído sobre a feiura extrema do crime. Dylan lidera o submundo com sede de sangue, chegando a ordenar que um associado espanque o próprio filho adulto como forma de entretenimento distorcido durante uma festa. Curiosamente, a série foge de quase todos os clichês clássicos do gênero policial e mafioso. Esqueça o detetive grisalho em perseguição implacável, o grande assalto arriscado ou o agente infiltrado prestes a ser desmascarado. A narrativa prefere focar na destruição psicológica.

O Peso do Trauma Familiar

Todos na trama, de certa forma, são vítimas de suas próprias escolhas e do ambiente corrompido. Cat é refém de um casamento arranjado na adolescência, o qual ela mesma reescreveu em sua mente como um grande conto de fadas. Shannon é vítima dos lucros ilícitos que a protegeram da dura realidade, deixando-a vulnerável a homens perigosos. Até mesmo Dylan, que subitamente abandona sua vida de crimes e a felicidade doméstica estilo “Família Soprano”, é engolido pelas expectativas paternas e por ideais distorcidos de masculinidade.

Mesmo com um final tenso e hipnotizante que flerta abertamente com o território das tragédias shakespearianas, a série pode parecer menos satisfatória na superfície do que um thriller criminal comum. Essa recusa em seguir regras fáceis é uma escolha deliberada de Regan. Por um lado, é fascinante ver a diretora aplicar seu dom cinematográfico a esse mundo de alianças complexas. Por outro, o distanciamento emocional de personagens tão difíceis de se identificar gera a sensação de uma oportunidade ligeiramente desperdiçada, principalmente quando sabemos da capacidade da diretora em criar empatia pura.

Se o cansaço com histórias convencionais de gângsteres bateu à sua porta, esse olhar oblíquo sobre o crime talvez não seja suficiente para conquistar você logo de cara. A estreia de Regan na TV continua sendo um feito inegável com uma recompensa altíssima. Para quem busca um banquete puramente visual e uma fuga do lugar-comum, a série garante entregar uma experiência que os olhos não vão esquecer tão cedo.